
Como se já não bastasse o sistema de transporte público precário, superlotado, caindo aos pedaços, agora o pedestre tem que aturar mais uma nos coletivos fétidos que rodam Salvador.
A tecnologia tratou de trazer pra Bahia o tal do celular walkman, quase um protótipo de trio-elétrico que está no bolso de todos os pagodeiros.
Hoje em dia ninguém passa uns minutos sem ouvir um pagodão, um axezão, um funkão.
Nem com meu radinho no ouvido, sintonizando Educadora FM ou Band News (O seu Caminho), eu consigo escapar do requintado gosto musical desse povinho querido que eu amo.
Nessas horas tenho que estar de bom humor e entender o contexto histórico e cultural do indivíduo. "Deixa ele, Hieros, só está se distraindo, ele não sabe o que é respeito". "Distraindo o caralho, esse retardado não vê que ninguém quer ouvir essa porcaria? Compra um fone, porra", penso, mais realista, mais eu.
O pior é que atraio esse tipo de gente: geralmente pagodeiro - nada contra o gênero, só me baseio pelo fatos. Procuro sentar numa cadeira cujo vizinho não tenha cara de que vai ligar o walkman. Putz, as pessoas hoje em dia estão muito mascaradas, e eu sempre erro o lugar.
No auge de minha irritação, me levantaria e sentaria em outro canto para que ele percebesse o meu desgosto. Mas meu sonho era mandar o sujeito se tocar, dizer que o barulho agride o direito de silêncio dos outros e bla, bla, bla. Sei que ele diria que "o buzu é público" e eu não teria argumentos para faze-lo entender. Sei que coligados do sujeito iam discursar: o bem é público, o rádio é meu, os incomodados que se mudem, não estou batendo, nao estou roubando, nao estou matando.
Então, como nada posso fazer nessas horas, tento persuadir com o olhar o ignorante. Olho para cara dele, pro celular, para cara dele, pro celular. Faço um bico, mexo no fone do meu ouvido com aquela cara de desgosto, de velho chatoa e rabugento. E nada.
Nessas horas tenho que estar de bom humor e entender o contexto histórico e cultural do indivíduo. "Deixa ele, Hieros, só está se distraindo, ele não sabe o que é respeito". "Distraindo o caralho, esse retardado não vê que ninguém quer ouvir essa porcaria? Compra um fone, porra", penso, mais realista, mais eu.
O pior é que atraio esse tipo de gente: geralmente pagodeiro - nada contra o gênero, só me baseio pelo fatos. Procuro sentar numa cadeira cujo vizinho não tenha cara de que vai ligar o walkman. Putz, as pessoas hoje em dia estão muito mascaradas, e eu sempre erro o lugar.
No auge de minha irritação, me levantaria e sentaria em outro canto para que ele percebesse o meu desgosto. Mas meu sonho era mandar o sujeito se tocar, dizer que o barulho agride o direito de silêncio dos outros e bla, bla, bla. Sei que ele diria que "o buzu é público" e eu não teria argumentos para faze-lo entender. Sei que coligados do sujeito iam discursar: o bem é público, o rádio é meu, os incomodados que se mudem, não estou batendo, nao estou roubando, nao estou matando.
Então, como nada posso fazer nessas horas, tento persuadir com o olhar o ignorante. Olho para cara dele, pro celular, para cara dele, pro celular. Faço um bico, mexo no fone do meu ouvido com aquela cara de desgosto, de velho chatoa e rabugento. E nada.
Quando estou à flor da pele, apelo pros santos, rezo e tudo, porque senão me deprimo. Fico que nem criança, tentando ter super poderes. "Explode, explode porcaria de celular".
O onibus chega ao meu destino, no bairro de Nazare, onde tem um relogio que olho sempre para me situar no tempo. Desço, agradeço ao motorista. Se a primeira pessoa que sair disser obrigado, eu em seguida falo bom bia, pra complementar.
O onibus chega ao meu destino, no bairro de Nazare, onde tem um relogio que olho sempre para me situar no tempo. Desço, agradeço ao motorista. Se a primeira pessoa que sair disser obrigado, eu em seguida falo bom bia, pra complementar.
Ajeito os meus oculos, a minha calça, a posição da minha pasta e desço a pé a ladeira da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré. Até sorrio. Morar na Bahia e andar de ônibus, como diz minha mãe, é um resgate cármico. Tudo é aprendizado, tudo é aprendizado.
2 comentários:
eu sempre encontro isso, meu deus, como pode?? e o cidadão ainda te encara, sabendo o que está fazendo! Na verdade, é engraçado, antes de ser irritante. Quantas vezes eu já coloquei o fone de ouvido e quis dividir aquela música com todos que estavam ao meu redor, contagiar o ambiente como eu estava contagiada!! mostrar aquilo que estava ouvindo! não vou mentir que já pensei! Aliás, pensei, dai pra fazer e uma questão se bom senso... rs
ô amiga, com certeza. bota bom senso nisso!
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