“Sempre me assustava com o cachorro da casa 13 da rua da Paciência. Quando eu passava pela calçada ele corria até as grades, e via em seus olhos uma vontade louca de me fazer de brinquedinho para coçar seus dentes. Nesse dia ele não estava lá. Me questionei por segundos o que ele estaria fazendo, depois voltei ao mundo onde os problemas latiam pra mim.Do lado esquerdo da rua, Dona Arlete passava com seu poodle de lacinhos vermelhos nos pés e um casaquinho do Flamengo, paixão calorosa de seu marido. Segundo a minha diarista, Dona Arlete não podia ter filhos e tratava o cachorrinho como se fosse um. Engraçado foi que não levei a sério, mas dias desses, no ponto de ônibus, Dona Arlete explicava ao cachorro porque Noé abrigou todos os bichinhos em sua arca. “Criação católica”, pensei.
Andei pensando se assim como Dona Arlete, eu também faço parte das conversas dos porteiros e diaristas, mas preferi me dedicar ao trabalho que tinha pra fazer naquela noite. Sempre que chegava em casa no rosar da madrugada, preparava um café e colocava a ração de Luzia, uma mistura de persa com vira-lata que uma colega do trabalho me deu, afirmando que eu era muito solitário, talvez porque nunca cedi ao flerte barato dela.
Eu passei a gostar de Luzia quando ela matou uma barata voadora que passei dias tentando matar com baigon, mas ela sempre escapava por debaixo dos móveis. Aquela foi a maior prova de fidelidade que um animal poderia ter feito por mim. E com prazer, pois Luzia brincava com o inseto ainda morto, jogando-o de um lado pra outro. Naquela noite, depois do café, dormi. Café me dá sono às vezes.
Sinceramente, eu não me lembro de ter matado alguém neste dia. Pelo contrário, até hoje eu acho que alguém matou minha gatinha, mas segundo a polícia, Dona Arlete me viu entrando na casa 13 e brigando com o dono do cachorro. Porque diabos eu iria brigar com uma pessoa que nunca vi na vida? Admito que odiava aquele cão, pois toda vez que passava em frente àquela casa ele me dava um susto. Eu sou muito distraído, e quando tenho raiva, sou perverso. Se eu tivesse matado o dono do cão, acabaria matando o cão também.
Ah mamãe, preciso que a senhora me tire daqui urgente. Não consigo fazer amigos e todas as pessoas riem da minha cara quando digo que eu não matei ninguém. Sonho com o cão latindo pra mim todos os dias e não sei porque essa perseguição. Eu era tão feliz com Luzia. Os médicos disseram que eu nunca tive uma gata, imagine? E que na casa 13 não tinha cachorros, que tudo isso era fruto da minha mente. Eu sei que havia um cachorro que latia para mim e que me olhava com repulsa e ódio. As pessoas dizem que eu tinha uma pistola mamãe! Pode rir, mas eu só choro.
Lembra que quando papai mandava eu matar os passarinhos da fazenda, eu nunca consegui acertar nenhum? Eu estou te contando tudo isso pra você saber que é tudo mentira o que eles falam.
Tem alguma coisa errada com as pessoas, mamãe. Lembra daquela última vez que nos vimos? Você dizia que estava na hora de eu me casar com uma mulher, que eu não podia ficar me envolvendo com homens e sem querer eu lhe machuquei com aquela faca que cortava cebola para a senhora fazer a sopa. Pra onde a senhora foi depois daquele, heim? Eu lhe obedeci e nunca mais me envolvi com homens. Lembro, até, um dia que estava indo comprar ração na mercearia da esquina lá da rua e um sem vergonha que nunca vi tão gordo ficou fazendo sinais para mim. Me deu uma raiva mamãe, mas fui logo pra casa pois Luzia estava faminta. Acredito que o sem vergonha morava lá na rua, pois ele me perturbou outros dias também. Só não sei em qual casa, porque todo mundo que mora na rua da Paciência eu conheço. É isso mamãe. Sinto saudades da senhora.
Venha logo me buscar e traga um gatinho pra mim. Eu não posso demorar, porque os homens de jaleco me enchem o saco.
Um beijo de seu filhote.”
- Você pode colocar esta carta no correio pra mim por favor?
Qual o endereço?
- Ta aí no fundo. Tudo certinho.
- “Cemitério Bosque da Paz”.... Tsc, esses loucos...
Um comentário:
eu adoro seus textos
Postar um comentário