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30 de novembro de 2005

Medo do escuro

Era uma vez um garoto que não queria dormir. Toda vez, quando sua mãe chegava do trabalho lhe dava um remédio pra ele pegar no sono. Ficava acordado a noite toda, olhando somente para a luz da lâmpada pra que o sono não chegasse. Seu medo era um só: não acordar mais.
Guardava os remédios sempre embaixo da língua e cuspia depois. Sempre fez isso, sempre viu persnoagens de novela cuspindo remedios, injustiçadas por serem tratadas como loucas. Seus olhos estavam fundos de tanto olhar pra luz, que quando não era noite, era o sol sua única direção.
Certo madrugada, com os olhos doídos e exaustos, apagou a lâmpada. Ouvira alguém dizer que era no escuro que todos os sonhos se realizavam, que era no escuro que toda a tristeza desaparecia, e somente no escuro poderia enxergar a luz que não cegasse. Sim, já estava ficando cego de tanta claridade.
No escuro, teve medo. Ainda que já fosse tão iluminado pela eletricidade, teve medo. Sentira-se no pavor, conheceu a si mesmo naqueles instantes de escuridão, que clarearam seus pensamentos, mostrando-lhe os rostos deformados de todos os monstros que lhe atormentavam. Sua mãe não lhe dera remédios aquela noite, e fechou os olhos já no escuro.
Uma luz muito forte lhe confortara, acalmando seus olhos tensos e enxagues.
Acordou cego, mas pela primeira vez, acordou. E reconheceu todo o brilho do escuro, todo o mistério acerca da falta de luz foi desvendado. A luz jamais existiria se não fosse o escuridão de seus pensamentos.
Chorou feliz. E aprendeu a dormir, reconhecendo que a luz lhe tapará a visão, e agora cego, a luz chegara para clarear seus sonhos.
Belos sonhos.

Hieros Vasconcelos

2 comentários:

Anônimo disse...

Sonhos sonhados numa noite escura, podem ser claros e brilhantes.
Realidade em um pleno dia de sol, pode ser extremamente tenebrosa, oscura...

Medo, coragem... que caminham juntos.

Anônimo disse...

a cegueira lhe trouxe uma nova visão da vida...
Jamais deixaremos de enxergar...
Bjo