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1 de outubro de 2005

Pobre Chico

Pobre Chico

Ouve-se as palavras exaltadas que saem da boca de Maria. Corre pelo barro, a notícia de que Maria emprenhou nas curvas do rio São Francisco, debaixo do pé de mangaba da casa de seu Jaú. Pobre Maria, agora está na boca do povo. Ninguém mandou escolher o filho de Seu Jaú pra ser pai do seu filho. Conta quem ouviu, porque quem viu não precisa mais contar. Tapem os ouvidos das crianças, Maria a rapariga, agora grita inverdades e infâmias. Xinga a falta de graça na vida que Deus lhe deu. Lava tuas roupas na barriga, esfrega na cara do menino a sujeira do povo que lhe lança ao léu. Pobre rapariga, digo, pobre Maria.

Ouve-se as palavras exaltadas que saem da boca do pai de Maria. Corre pelo barro que ele vai aceitar a filha sem casar, que não vai nem castigar a menina. Infeliz do pai de Maria, que quando passa na padaria, a cidade toda lhe rendia um puxado de vergonha. Pior do que rapariga, é pai de rapariga que não lhe dá uma cinta.Não lhe dêem atenção, agora vives a falar que o filho de sua filha veio para salva-la, enquanto Maria desdenha-lhe no ouvido: cala-te pai, esse pivete vai ser seu, que minha vida é só minha.
Triste Maria. Morreu no dia do parto. Sofre o pai, que arrancaram-lhe dos braços o bebê que o pertencia. Conta quem viu, que Seu Jaú mandou matar a criança, porque quem ouviu não pode contar mais. Pobre pai de Maria, agora só, agora louco, não fala mais. Calou-se para o mundo.
Corre pelo barro a notícia de que o pai de Maria jogou o menino no rio São Francisco, e que o menino é filho do avô. Mas nisso eu não acredito.
Pobre destino. Pobre Chico, corre pelo rio.


Hieros Vasconcelos

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