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3 de maio de 2005

"Cartinha para a mamãe"

“Sempre me assustava com o cachorro da casa 13 da rua da Paciência. Quando eu passava pela calçada, ele corria até as grades, e em seus olhos, uma vontade louca de me fazer de brinquedinho para coçar os dentes. Nesse dia ele não estava lá. Me questionei por segundos o que ele estaria fazendo, depois voltei ao mundo humano onde meus problemas latiam pra mim. Do lado esquerdo da rua Dona Arlete passava com seu poodle de lacinhos vermelhos nos pés, e um casaquinho do Flamengo, amor caloroso do seu marido pelo time. Segundo a língua da diarista que me fazia o almoço, ela não podia ter filhos, e tratava o cachorrinho como se fossem um. Engraçado foi que não levei a sério, e dias desses no ponto de ônibus, Dona Arlete explicava ao cachorro porque Noé abrigou todos os bichinhos em sua arca. Criação católica, pensei.
Andei pensando se assim como Dona Arlete, eu também faço parte das conversas dos porteiros, mas preferi me dedicar ao trabalho que tinha pra fazer ainda naquela noite. Sempre que chegava em casa tarde da noite, botava a água pra ferver e colocava a ração de Luzia, uma mistura de persa com vira-lata que uma colega do trabalho me deu, afirmando que eu era muito solitário, sem nunca eu a convidar pra almoçarmos juntos. Eu passei a gostar de Luzia quando ela matou uma barata voadora que passei dias tentando matar com baigon, mas esta sempre escapava. Aquela foi a maior prova de fidelidade que um animal poderia ter feito por mim. E com prazer, pois brincava com o inseto ainda morto, jogando-o de um lado pra outro. Dormi profundamente naquela noite.
Sinceramente, eu não me lembro de neste dia ter matado ninguém. Pelo contrário, até hoje eu acho que alguém matou minha gatinha, mas segundo a polícia, Dona Arlete me viu entrando na casa 13 e brigando com o dono do cachorro. Porque diabos eu iria brigar com uma pessoa que nunca vi na vida? Admito que odiava aquele cão, pois toda vez que passava em frente à casa ele me dava um susto. Eu sou muito distraído. E se eu tivesse matado o dono do cão, acabaria matando o cão também, mas como nunca fui assassino...
Ah mamãe, preciso que a senhora me tire daqui urgente. Não consigo fazer amigos e todas as pessoas riem da minha cara quando digo que eu não matei ninguém. Sonho com o cão latindo pra mim todos os dias e não sei porque essa perseguição. Eu era tão feliz com Luzia, que por sinal sumiu. Os médicos disseram que eu nunca tive uma gata, imagine? E que na casa 13 não tinha cachorros, que tudo isso era fruto da minha mente. Segundo eles, eu tinha uma arma! Uma pistola mamãe! Pode rir, porque é pra achar graça. Lembra que quando papai mandava eu matar os passarinhos da fazenda, eu nunca consegui acertar nenhum? Pois é.
Eu estou te contando tudo isso pra você saber que é tudo mentira o que eles falam. Enquanto Dona Arlete fica catequizando o cachorro dela, eu fico aqui tendo pesadelos com o cão maldito e convivendo com um monte de loucos. Tem alguma coisa errada mamãe. Lembra daquela última vez que nos vimos? Você dizia que estava na hora de eu me casar com uma mulher, que eu não podia ficar me envolvendo com homens e sem querer eu lhe machuquei com aquela faca que cortava cebola pra a senhora fazer a sopa. Pra onde a senhora foi depois daquele dia heim? Eu obedeci o que você me disse e nunca mais me envolvi com homem nenhum. Lembro até um dia que estava indo comprar ração na mercearia da esquina de lá da rua e um sem vergonha que nunca vi tão gordo ficou fazendo sinais para mim. Me deu uma raiva mamãe, mas fui logo pra casa pois Luzia estava faminta. Acredito que o sem vergonha morava lá na rua, pois ele me perturbou outros dias também. Só não sei em qual casa, porque todo mundo que mora na rua da paciência eu conheço. É isso mamãe. Sinto saudades da senhora. Venha logo me buscar e traga um gatinho pra mim. Eu não posso demorar, porque os enfermeiros me enchem o saco aqui.
Um beijo de seu filhote.”

- Você pode colocar esta carta no correio pra mim por favor?
- Qual o endereço?
- Ta aí no fundo. Tudo certinho.
- “Cemitério Bosque da Paz”.... Tsc, esses loucos... Já pro quarto!

5 comentários:

Anônimo disse...

ai que saudade q eu tava dos seus textos...beijos
Cris

Anônimo disse...

E eu tb! Gostoso de ler e mais ainda para pensar depois.

Anônimo disse...

Adorei esse texto!
seu mesmo?
mtu bom!
me fez pensar bastante...
=]
saudades priminho
bjos

Anônimo disse...

Sensacional!
Adoro seus textos!
São de uma sensibilidade e de uma firmeza... Incríveis.
Adoro, adoro mesmo, moço.
E estou com saudades de você!
Beijão

Anônimo disse...

Não me diz que o cara que paquerava ele, foi quem ele matou? O dono do cachorro que não existia?