Aos 14 anos eu me desgarrei. Foi uma tia minha que me perguntou se eu era gay, depois contou para toda a família. Todo mundo desconfiava pelos trejeitos, voz e comportamento, por isso não me importei. Essa tia era ótima: fashion, morava nos Estados Unidos, tinha uma BMW na porta de casa e colhia amoras dos pés espinhosos que mandava cortar no verão. De manhã, a neblina ainda cobria Mill Valley e um cheiro de alecrim tomava conta do ar. Não me esqueço desse sentido tão nobre em minha vida.
O olhar de minha família não me receava, mas me agoniava por eu não saber o que se passava na cabeça de 11 primos, 9 tios, uma avó, uma bisavó, duas tias-avós, além dos conjugados de uma família: empregada, babá, cunhados e cunhadas, etc.
Nas festas da casa de minha avó, passei a ficar encostado nos cantos do apartamento. A alegria e a conversa fluíam, de forma a me inibir. Respondia sempre aos parentes num tom seco, desconfiado.
Tinha medo. Sentia um olhar diferente, que me julgava sem me condenar. Sentia-me objeto de discussões: aposto que enquanto assistiam à novela das oito, comentavam sobre minha homossexualidade. Os homens da família, provavelmente, discutiam sobre o fato de eu ser gay aos 14 anos de idade numa conversa de bar. “Eu tenho um sobrinho gay”, deve ter falado algum deles batendo no peito, com um ar de macho.
Por uns tempos minha avó escrevia frases esperançosas nas cartas que me dava junto aos presentes. Sei que ela tirava as frases do fundo de sua alma batista moderna, matriarca de dezenas de filhos e netos, e bisnetos.
O porto seguro de uma era. Era essa minha avó. Lembro-me bem: “você está como um náufrago perdido no mar”, dizia em uma das cartas, escrita com a letra que só uma professora de português, em meados de 40 e 50, poderia ter. Impecável. A minha letra é espelhada na dela. Em casa, minha mãe aceitava com uma naturalidade filtrada e descontava tudo em uma desenfreada preocupação. Estava sendo aprisionado em universo desconhecido. Ninguém sabia da sexualidade de meus amigos e a minha família toda sabia de mim. Era, no mínimo, estranho para um garoto de 14 anos e inaceitável para seu próprio preconceito...
O olhar de minha família não me receava, mas me agoniava por eu não saber o que se passava na cabeça de 11 primos, 9 tios, uma avó, uma bisavó, duas tias-avós, além dos conjugados de uma família: empregada, babá, cunhados e cunhadas, etc.
Nas festas da casa de minha avó, passei a ficar encostado nos cantos do apartamento. A alegria e a conversa fluíam, de forma a me inibir. Respondia sempre aos parentes num tom seco, desconfiado.
Tinha medo. Sentia um olhar diferente, que me julgava sem me condenar. Sentia-me objeto de discussões: aposto que enquanto assistiam à novela das oito, comentavam sobre minha homossexualidade. Os homens da família, provavelmente, discutiam sobre o fato de eu ser gay aos 14 anos de idade numa conversa de bar. “Eu tenho um sobrinho gay”, deve ter falado algum deles batendo no peito, com um ar de macho.
Por uns tempos minha avó escrevia frases esperançosas nas cartas que me dava junto aos presentes. Sei que ela tirava as frases do fundo de sua alma batista moderna, matriarca de dezenas de filhos e netos, e bisnetos.
O porto seguro de uma era. Era essa minha avó. Lembro-me bem: “você está como um náufrago perdido no mar”, dizia em uma das cartas, escrita com a letra que só uma professora de português, em meados de 40 e 50, poderia ter. Impecável. A minha letra é espelhada na dela. Em casa, minha mãe aceitava com uma naturalidade filtrada e descontava tudo em uma desenfreada preocupação. Estava sendo aprisionado em universo desconhecido. Ninguém sabia da sexualidade de meus amigos e a minha família toda sabia de mim. Era, no mínimo, estranho para um garoto de 14 anos e inaceitável para seu próprio preconceito...
Um comentário:
Interessante.
Só uma pergunta: alguma coisa é autobiográfica?
Beijos!
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