Enquanto estava sem ter pauta no trabalho, fui avisado da presença de uma mulher na recepção querendo fazer uma denúncia. Desci preparado para ouvir uma grande história. Da briga do vizinho à dívida trabalhista de R$1,2 milhão que tramita na 32ª Vara de Trabalho na Bahia. Da política familiar à nacional. Às vezes rio, às vezes choro e outras tenho vontade de mandar alguns idiotas para a merda, quando ligam dizendo que estão sendo perseguidos pela marido da prima do vizinho que mora na rua ao lado. Doidos. Maníacos. Pobres. Vagabundos.
Desci decidido a ouvir a angústia que aquela mulher deveria estar sentindo.
- Boa Tarde! - disse. - O que foi?
E Dona Esmeralda desabou a falar enquanto ajeitava seus óculos toscos e fundos de garrafa. Dava para contar os degraus de fora para dentro, até chegar nos olhos dela, miúdos, miúdos.
Estava diante de uma mulher simples, pobre, preta, velha, ignorante, quase cega e angustiada, com um caderno em mãos e na esperança de que eu, um simples e mero repórter estagiário pudesse resolver o problema dela. Desde que comecei a estagiar, esse tipo deveria ser a milésima que encarei.
Dona Esmeralda Rosário é diarista, batalhadora, tem um filho quase adolescente e voltou a estudar depois dos 47, que parecem 55. Uma mulher de fibra, de garra, e aparentemente diícil de conviver. Uma pessoa crua, sangrando e ainda viva. Uma vítima. Então ela me disse que estava sofrendo piadinhas no colégio onde estuda porque tinha uma miopia muito forte, ou porque era velha e os alunos gozavam. Os estudantes bastardos ignorantes, não a enxergavam como gente. E descobriu que nem mesmo o diretor da escola. Ele foi contatado e debochou da situação, destratou Esmeralda e lhe disse que saísse do colégio.
- Mas isso machuca as pessoa, Sinhô. Eu tenho um fio para criá, quero passá um conhecimento a ele, quero alguma coisa dessa vida, nem o diretor qué me ajudá, é obrigação dele - me disse a preciosa em seu estado mais bruto e foi nesse instante, que respirei fundo como quem pensasse que nunca mais precisaria estar tão defronte dessa condição humana, que perco as palavras para explicar.
O máximo que eu poderia fazer era escutá-la chorar, entendê-la e encaminhá-la para a Secretaria de Educação para reclamar da postura do diretor. Ir numa delegacia dizer que está sofrendo discriminação num cursinho pré-vestibular do governo intitulado de "Uiversidade para todos". Ou então, "vá lavar prato sua velha chata. Lá é seu lugar nesse mundo filho da puta".
De repente ela chorou ao lembrar de quando foi retirada da sala pelo diretor. E quando recordou de todos os professores fazendo pouco caso da velha da turma, chata, antiquada e que deveria estar dentro de casa lavando roupa em vez de desentender a juventude favelada. Quase um "se pique. Você não se encaixa mais. Morra desgraça. Sua velha ordinária, insuportável Não tem o que fazer e fica aqui atrapalhando minha aula. Esses velhos idiotas que não se compreendem."
Ela estava transtornada. Estava nervosa, agitada e ao mesmo tempo contida perante a minha figura. Além de repórter, eu era como um psicólogo para aquela mulher desvairada, que pedia exaustivamente por um pouco de dignidade, justiça, direitos. Coisas que no meio dessa lama chamada Brasil se tornam tão banais e cotidianas.
Era uma pessoa precisando de ajuda. Injustiçada pela PORRA dessa vida. Desesperada porque não era "bonita, mas sabia disso". Porque não se "arrumava para ir pro colégio, para não gastar as roupas novas". "Que não tinha dinheiro e assumia sua luta, seu sofrimento". Que estava voltando a estudar depois de 30 anos. Que outrora foi chamada de “velha infeliz” por um de seus colegas e, me disse, com a mão no peito: "eu não sou infeliz não, sinhô. Muitos podem dizer que sou mas eu não sou. Eu gosto de minha vida, ela é boa, eu luto, eu tenho um filho, eu tenho um caminho".
Lembrei de Macabéia por alguns momentos.
Deixei tudo anotado em meu bloquinho.
Subi para a redação enquanto Esmeralda, transtornada, podia ser atropelada por uma mercedez na Av. Sete Portas.
Adeus. Pensei.
E lá se foi a Pedra Preciosa. Bruta. Decidida. Sofrida. Viva. Verde Esperança, até a morte.
8 comentários:
Meu Deus, quem foi essa criatura???
Imaginei toda a cena, aliás, ótima comparação com Macabéa. Idêntica, plenamente.
Quem sabe mais tarde ela te traz outra notícia:
"Aluna idosa de cursinho público fura os olhos dos seus colegas de classe"
Credo!
Amigo, preciso de sua ajuda, vote no meu blog.
O link encontra-se no mesmo.
Só vai te custar 1 único minuto. Fiz as contas aqui. rsrsrsrs...
;-)
Macabéias simples ...
Que bão pensam grande só o necessário...
Mas, nem isso elas têm...
Realidade do nosso Brasil sofrido
Que dá ajuda e ao mesmo tempo toma ela das nossas mãos...
e lá se vai dona Esperança..na ESPERANÇA...
Hieros, essa mulher conseguiu lhe enganar, eu penso.A historia dela está furada. Está com mania de perseguição, definitivamente.
Liliane de Paula
Hieros, minha realidade vc não conhece, não é? Trabalho como médica em serviço público faz mais de 20 anos. Já vi muitas e muitas Esmeraldas. Não fique com raiva mas é minha opinião. Cada uma tem a sua, não é? Lá em cima eu disse "eu penso".
Liliane de Paula
Hieros, que bom que vc nao ficou com raiva. Quero continuar merecendo sua atenção. Vc vai continua tendo a minha. Mas vou continuar pensando do jeitinho que escrevi. É a minha experiência.
Liliane de Paula
Preconceito e intolerância...nada me tira mais do sério que isso!
texto muito bacana!
Hieros, você é simplesmente um talento bruto da nova geração. Um príncipe erudito com sensibilidade de ver nas crises grandes reflexões e tirar a poesia de pequenos trechos da vida. À jovem (da melhor idade) Macabéia espero que tenha tido merlhor sorte que a personagem. A você pequeno escritor muita sorte, porque você é um grande lutador e por si só se destaca entre os meros mortais.
A propósito, não sou anônima, sou alessandra do jornal em que a pobre Macabéia desventurada apareceu. Adorei
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